segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Um País de Canalhas


Pensar Portugal. Nós somos um país de «elites», de indivíduos isolados que de repente se põem a ser gente. Nós somos um país de «heróis» à Carlyle, de excepções, de singularidades, que têm tomado às costas o fardo da nossa história. Nós não temos sequer núcleos de grandes homens. Temos só, de longe em longe, um original que se levanta sobre a canalhada e toma à sua conta os destinos do país. A canalhada cobre-os de insultos e de escárnio, como é da sua condição de canalha. Mas depois de mortos, põe-os ao peito por jactância ou simplesmente ignora que tenham existido. Nós não somos um país de vocações comuns, de consciência comum. A que fomos tendo foi-nos dada por empréstimo dos grandes homens para a ocasião. Os nossos populistas é que dizem que não. Mas foi. A independência foi Afonso Henriques, mas sem patriotismo que ainda não existia. Aljubarrota foi Nuno Álvares. Os descobrimentos foi o Infante, mas porque o negócio era bom. O Iluminismo foi Verney e alguns outros, para ser deles todos só Pombal. O liberalismo foi Mouzinho e a França. A reacção foi Salazar. O comunismo é o Cunhal. Quanto à sarrabulhada é que é uma data deles. Entre os originais e a colectividade há o vazio. O segredo da nossa História está em que o povo não existe. Mas existindo os outros por ele, a História vai-se fazendo mais ou menos a horas. Mas quando ele existe pelos outros, é o caos e o sarrabulho. Não há por aí um original para servir?

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 2'

Completas



A meu favor tenho o teu olhar testemunhando por mim 
perante juízes terríveis: 
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina,
in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”

OLHAR aquando do regresso...



Não foi preciso nada para me dar conta de que estava na minha gente. Sentado na cadeira de verga na varanda de madeira, ressequida pelos anos e quase coberta de hera, via as fragas, acesas pelos raios do sol, agasalhadas pelo musgo verdinho, – como que acabado de nascer no seio da neve derretida. À tardinha, passavam as mulheres de cântaro à cabeça; iam à fonte de mergulho tirar água. Depois, velhas e novas, conversando, subiam a barreira com os cântaros cheios, equilibrados nas molídias postas à cabeça sobre os lenços negros, e seguiam caminhando, descalças, por aquelas ruelas labirínticas de casas de xisto e de gorrão, cobertas de flores. Outras, tocam os burricos com cangalhas, onde levam embrulhado num xaile o filho de meses e o que é preciso para a ceia. Fico largos momentos a observar a paisagem dos rostos, plasmada de resignação e indiferença, da dor de ter nascido e do teimar em estar vivo. Olho as máscaras gastas das mulheres sentadas ao sol, a cismar, por detrás dos lenços negros que lhes tapam o rosto quase todo. Outras, agachadas na gasta pedra do portal ou no vão da escada, ficam a catar os piolhos aos filhos, ou a entrançar o cabelo às raparigas. As de meia-idade, no silêncio das tardes de calma, fazem as meias e remendam a roupa. Todas estão enraizadas há séculos, até um dia!... Num pronto, deixei de sentir o cheiro a suor na igreja, – gente descalça que se lavava pouco e mal, o permanente odor do estrume, e de me assustar com os milhares de moscas por toda parte; já pouco me importa o estrume, as bostas das vacas nos caminhos e na estrada, o cantar dos galos de madrugada, ou o toar dos sinos que anunciam mortes, alegrias e Trindades. Até o chiar dos eixos dos carros de bois me despertam do torpor. Deixei também de sentir a brisa fria, gelada e seca que, pelas madrugadas, vem da serra. Agora de regresso, vejo melhor como toda esta gente é pobre, talvez mesmo miserável e como, apesar disso, é tão feliz! Não foi preciso nada para me dar conta de que estava na minha gente.


JOÃO SENA









"Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá."

Vergílio Ferreira

"Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe por provar o contrário."

Albert Einstein